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Biointolerância.

04/06/2008 Biointolerância.

Outro dia olhei pela janela e senti uma náusea delicadamente temperada com indignação. Bicando no meu alimentador de pássaros estavam dois cucos-de-cabeça-marrom, um macho e uma fêmea, e eu sabia o que aquilo significava. Muito em breve a gorducha e fertilizada fêmea iria colocar seus ovos no ninho de algum outro pássaro, com a expectativa de que seus ingênuos hospedeiros fossem chocar, alimentar e educar seu barulhento e esfomeado filhote, negligenciando seus próprios bebês.

 

"Ei, seus parasitas, tirem seus bicos de minhas sementes", pensei. Aquele alimentador é para os bons pássaros, os pássaros dos quais eu gosto –cardeais, trepadeiras, chapins, abelharucos-de-crista, pica-paus, tentilhões-dourados. É para os pássaros trabalhadores, com fibra moral suficiente para criarem suas próprias famílias e ainda parecerem fotogênicos.

 

Em suma, eu estava sofrendo de um severo caso de biointolerância: o persistente desejo irracional de estar rodeado apenas por aquelas espécies que todos aprovam, excluindo quaisquer animais, plantas e outras formas de vida consideradas ofensivas. Não era o meu primeiro episódio da doença, e evidentemente eu não sofro sozinha.

 

“Através da história, houve animais difamados e animais admirados,” diz John Fraser, um psicólogo da conservação da Wildlife Conservation Society. “Existem os animais dos quais você não gosta e os animais cujos atributos você quer possuir” -- ser um tigre, um urso, o lobo líder da matilha.

 

Estilo de vida

 

A biointolerância é diferente do impulso de evitar organismos que podem nos machucar ou transmitir doenças, como mosquitos e hera venenosa, ou defender-se de pestes domésticas tradicionais, como camundongos e baratas. Ela pode ser definida como a antipatia que direcionamos a criaturas que vivem ao ar livre e geralmente cuidam de suas próprias vidas, mas que o fazem de uma maneira que consideramos rude, irritante, egoísta ou desprezível.

 

Os esquilos são glutões, os corvos são como os valentões do colégio, os pardais caseiros são tediosos e se parecem com camundongos quando se sacodem pelo chão. Como amamos aqueles nobres falcões e águias que nos abençoaram fazendo seus ninhos em nossos arranha-céus e pontes. Como lhes imploramos que se banqueteiem livremente com os pombos que nos amaldiçoam ao fazerem seus ninhos em nossos arranha-céus e pontes.

 

Algumas vezes nossa biointolerância é meramente situacional. Durante uma entrevista sobre hienas-pintadas, por exemplo, um pesquisador da Universidade da Califórnia em Berkeley referiu-se desdenhosamente aos gnus, frequentemente caçados pelas hienas, como “gnus-burguers”. Por quê? Porque, assim que um gnu é capturado, disse o cientista, ele fica parado com uma passividade de vaca e aguarda seu próprio despedaçamento. Compare isso com a zebra, disse o pesquisador, que reage lutando e chutando e, se puder, quebrando a mandíbula do predador.

 

Excesso de interpretação

 

“Oh, todos nós temos uma tendência a interpretar excessivamente as coisas que vemos”, diz Marc D. Hauser, professor de psicologia e biologia evolutiva da Universidade Harvard e autor do livro “Moral Minds”. “Eu me recordo claramente, quando fui pela primeira vez ao Parque Nacional Amboseli [no Quênia] para estudar macacos-vervetes, da rapidez com que desenvolvi fortes sentimentos contra a personalidade dos macacos –- aqui estavam os grandes e bravos, lá estavam os fracos que se escondem nos arbustos e agem de forma patética."

 

Em outros momentos, agimos para favorecer nossos heróis ou arruinar nossos bodes-expiatórios, cujo maior pecado, na maior parte das vezes, é serem excepcionalmente bons no que fazem. Tentamos proteger dos esquilos nossos alimentadores de pássaros, arrancamos ervas-daninhas de nossas floreiras, chamamos o Controle de Animais, e quando tudo isso falha, pegamos nossa espingarda.

 

Nós sempre temos uma história para justificar nossas ações mais agressivas contra animais não-desejados. O animal é uma espécie invasora, como o estorninho, e não pertence a este lugar. Ou é uma espécie nativa como o cuco, mas sua abrangência foi estendida de forma não-natural através do desmatamento. Ou ele gosta de nosso lixo e de nossos parques descuidados e por isso tem uma injusta vantagem sobre criaturas mais exigentes.

 

Justificativas fracas

 

Não importando o que as autojustificativas apontem, diz Marc Bekoff, autor do livro "The Emotional Lives of Animals" e professor emérito de biologia da Universidade do Colorado, “eu vejo isso como um engano no qual criamos uma situação onde os cucos se disseminam, as raposas-vermelhas comem pássaros em extinção e então decidimos, bem, agora temos de sair e matar os cucos e as raposas”.

 

Nossa tendência à biointolerância, segundo especialistas, surge de várias características humanas salientes. Por exemplo, estamos equipados com uma teoria de mente frequentemente hiperativa – a convicção de que os que estão à nossa volta têm suas próprias mentes, objetivos e desejos, e que nossa obrigação seria antecipar o que eles farão em seguida. Criamos narrativas elaboradas partindo das mais frágeis linhas de raciocínio: veja, o corvo está tentando desalojar o cuco do alimentador. “Nós interpretamos o comportamento animal através de lentes e moralidade humanas”, diz Fraser.

 

Também há a insistente idéia de que a natureza nos pertence, e que temos o direito e os meios de controlá-la. “No passado, quando falamos sobre explorar a natureza, isso era visto como uma coisa boa”, afirma Fraser. “Agora percebemos que essa postura é contraproducente para o sucesso da raça humana.”

 

Paradoxo

 

Em lugar algum nosso senso de direito divino sobre a natureza está mais evidente do que em nossa postura paradoxal em relação aos animais de fazenda. De um lado, eles são as amadas figuras de nossa infância. Do outro, muitas de nossas comparações mais pejorativas nasceram no curral: seu porco nojento, sua vaca preguiçosa, seu frangote, que bando de ovelhas.

 

Os grupos conservacionistas, que acompanham os posicionamentos públicos relativos a animais, reconhecem estar sempre em busca do próximo Ídolo Animal –- uma criatura ecologicamente importante e que invariavelmente acaba se revelando grande, esplendorosa, carismática e amável.

 

Se você tem dois pássaros importantes da mesma região da América Latina, disse Fraser, um sendo uma arara vermelha similar a uma jóia voadora que consegue vocalizar como um humano, e o outro um petrel barulhento e que pinta o litoral com excremento, adivinhe qual delas estará no próximo calendário de arrecadação de fundos?


Fonte: New York Times


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